A Poesia do Mestre Machado de Assis Por Sergio Tavares
A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs um mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos.
Machado de Assis foi um gênio brasileiro, melhor
dizendo, é um gênio, pois quem foi nunca deixará de sê-lo, e os grandes gênios
são almas imortais.
Entre os escritores é um dos maiores da
literatura universal, e entre os poetas, não poderia deixar de ser diferente.
Sua vida demonstra o quanto um homem diante de
tantas dificuldades soube com esforço inigualável, superá-las paulatinamente,
impondo-se diante de uma sociedade racista, com inteligência e sabedoria, e
conseguindo, dessa forma, angariar o respeito, ainda no tempo do Brasil Imperial.
Filho de uma lavadeira e de um pintor de paredes,
negro, nascido no morro do Livramento, e tendo diante de si uma infância paupérrima,
conseguiu ultrapassar esse período difícil de sua vida, graças ao seu fascínio
pela literatura. Pouco se sabe da infância e adolescência de Machado, mas não é
difícil imaginar o que um gênio é capaz de fazer para superar seus limites, ou
pelo menos, os limites impostos pela vida.
Aprender a ler foi uma questão de
sobrevivência, mas aprender a
escrever e despertar dentro de si essa paixão adormecida pelos livros,
foi um grande enigma que nos intriga e nos leva a pensar, por ser um
fato difícil e improvável, num país,
praticamente colonial, com alguns letrados vivendo em algumas raras
ilhas culturais.
Mais do que isso, superar todas as expectativas
mais otimistas e se tornar um dos maiores escritores do planeta, isto sim é um
grande enigma, coisas de bruxo - como o chamaria o poeta Drummond, -
mas para os homens geniais, não existem obstáculos que os impeça de progredir.
Assim como a sua vida, sua obra está repleta de
grandes bruxarias para serem desvendadas, e que tem causado grande celeuma entre
os intelectuais. Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro,
são exemplos claros de que as dúvidas e possibilidades de interpretações das
obras do grande Mestre, vão muito além do que pode imaginar a vã filosofia
humana, citando Shakespeare.
Mas falemos de poesia, especialmente da poesia de
Machadinho que escreveu poesia por toda a sua vida, e de ótima qualidade,
tendo escrito, inclusive, muitas crônicas em versos. Não há necessidade de
dizer que Machado foi um dos maiores cronistas brasileiros, e isto é fato
indiscutível.
Devemos lembrar que a poesia passou por diversos
períodos distintos, onde em cada época da literatura, se valorizou estilos
diferentes e na maioria importados da Europa, principalmente da cultura francesa,
mas a poesia foi a chave que abriu todas as portas para o sucesso do mestre.
Machado publicou seu primeiro poema aos quinze
anos aproximadamente, mas com certeza começou a escrever bem antes, ainda na
primeira metade do século dezenove, vindo a escrever o poema A Carolina (uma
obra-prima), em 1906, uma homenagem póstuma para sua amada esposa.
Alguns críticos insistem em dizer, que a poesia
de Machado não é boa, mas se não o fosse, ele certamente não teria sido poeta
por mais de cinquenta anos, tendo escrito uma obra poética farta em qualidade,
que ultrapassou um século depois de sua morte sendo elogiada e aclamada por
grandes autores. Até hoje não li grandes críticas escritas especialmente por
seus contemporâneos, que renegassem sua poesia.
Pelo contrário, poucos poetas no Brasil
escreveram uma obra poética tão rica, em termos de criatividade e qualidade
linguística, com respeito ao idioma pátrio, e acima de tudo, demonstrando
respeito pelo leitor, como o fez o Mestre Machado.
Para quem não leu a obra completa desse gênio, e
não conhece sua poesia, recomendo ler o livro Toda Poesia de Machado de Assis,
750 páginas, organização de Cláudio Murilo Leal, editado pela Record em 2008.
Esse livro resgata a imensurável contribuição do mestre Machado para a história da poesia no Brasil.
Daí a grande importância de se
resgatar as obras poéticas de Machado, verdadeiras aulas de Língua Portuguesa,
e principalmente, sua vida como um belo exemplo para os jovens brasileiros,
demonstrando que é possível superar dificuldades e vencer, mesmo quando tudo
parece perdido.
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