AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

27/11/1930

            

        Fernando Pessoa e as Dores do Mundo

Por Sergio Tavares

 

O poeta Fernando Pessoa no poema Autopsicografia, nos faz mergulhar de forma profunda no imenso mar da poesia. É um mar salgado pelas lágrimas dos homens sensíveis, dos marinheiros solitários, dos poetas e seus destinos desvairados, na intensa busca da “nobre arte”. São lágrimas que brotam suavemente nas dores sentidas nos corações dos leitores, que antes de se sensibilizarem com a dor lida, já conhecem a sua própria dor, e por conhecê-la, reconhecem-se na obra do poeta.    

O vate lusitano não escreve apenas para quem o possa ler, mas também e, principalmente, para quem o possa sentir. Não as dores de seus versos, mas as dores da vida, do ser e da alma.

Percebe-se que o mundo se transforma, diante da palavra poética de Fernando Pessoa, e o Ser Humano se reconhece diante do artista, da poesia e de sua arte, pois a arte não é um fim, mas antes de tudo um meio, ou seja, é um caminho para se chegar ao lugar que se deseja. É a busca do equilíbrio, entre os desequilíbrios da vida real, busca de verdades quase inatingíveis, entre os fingimentos que são a própria transformação da realidade.   

O título do poema já nos remete a um exercício de meditação, para entendermos que o poeta escreve com a alma, colocando de forma intensa a própria mente, sendo que cada palavra escrita traduz suas próprias dores entre as suas verdades, demonstrando o profundo envolvimento espiritual do escritor com as palavras e a profundidade do mundo poético.

O poeta é um fingidor que transforma o mundo em que vive, ao possibilitar ao leitor interpretar o poema e o sentimento do mundo por variadas formas. E nessa interpretação o leitor, passa a perceber sentimentos diversos inerentes ao homem. Há um chamamento para se despertar a sensibilidade adormecida.

O poema não existe sem a participação do leitor, que percebe no jogo das palavras, a dor fingida e a sentida pelo poeta, mas também a sua própria dor.

O mundo é transformado tão completamente, que as dores se misturam e no final das contas, as três dores se confundem em uma só, que é a dor humana em suas múltiplas facetas, causada pelas angústias das dúvidas existenciais, pelas dores que fingimos não sentir, mas que verdadeiramente sentimos.

Ninguém consegue ler este poema sem deixar de ser conivente com as dores do poeta Fernando Pessoa. Não, ninguém o lê impunemente, sem sentir algo de novo dentro de si, enfim, sem refletir a realidade em que vive.     

http://www.jornaldepoesia.jor.br/fpesso.html

 
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