Na verdade hoje eu sei que acabamos indo para Brasília, porque meu pai fora transferido por necessidade do serviço, por ser policial militar, e minha mãe que havia ficado conosco, resolveu seguir seus passos, algum tempo depois, movida pelo medo de perder o marido.
Deste tempo tenho pouquíssimas lembranças, mas alguns raios de memória iluminam a escuridão de minha mente, e me mostram minha mãe próxima a uma cachoeira, na verdade uma mina d`água, que começa aos poucos a crescer diante da minha visão de criança, e por isso uma mina tenha se transformado com o passar dos anos em uma cascata.
Sinto também o cheiro de chá de erva-doce, cujas sementes mamãe costumava colher pelas estradas por onde saíamos ao caminhar pelas manhã, ouvindo os cantos dos pássaros e cigarras. Este chá substituía o nosso café que não comprávamos por falta de dinheiro.
E lá, então, permanecemos por algum tempo até o dia em que retornamos para o Rio de Janeiro. No dia em que escrevia estas memórias, liguei para minha mãe tentando tirar dúvidas, sobre onde moramos depois que viemos de Brasília, mas a memória dela já estava muito falha e possuía raríssimas lembranças desse tempo. Talvez já demonstrasse os primeiros sinais de Alzheimer, que pouco depois lhe apagaria a mente quase por completo. Nesse dia, ela me disse que fomos morar em uma casa que pertencia ao papai, num lugar chamado Dr. Laureano, em Duque de Caxias.
Acredito que foi lá que tiraram uma foto minha totalmente pelado, do jeito que vim ao mundo, mas na verdade foi um nu artístico. Lembro ainda de uma foto que tiraram de meu irmão, também nu, só que ele estava segurando um pincel, desses que se usa para pintura de paredes, e, por sorte, ele espontaneamente colocou-o em frente às suas partes íntimas. Eram fotos daquelas de qualidade bem ruim, feitas em algum lambe-lambe quando ainda se utilizavam os antigos binóculos.
A minha fotografia até que ficou interessante, pois eu era um pouco mais fotogênico, do que hoje em dia. Entretanto, já ouvi muitas piadas por conta dessas fotos, que não sei mais por onde andam. Existia ainda outra foto desse tempo, onde aparecia a minha irmã e meu irmão, juntos comigo, mas graças a Deus resolveram nos deixar vestidos dessa vez.
No mais, dessa época, somente lembro que eu quase caí dentro de um poço, e que meu pai, mais uma vez foi meu herói, pois saiu correndo para me pegar quando eu já estava a um passo de um grande abismo que se encontrava aberto.
Se eu tivesse caído, certamente não estaria aqui para contar a história.
Pois bem, depois disso nos mudamos para Piabetá, onde aconteceram as histórias contadas no capítulo anterior, pois são as minhas lembranças mais marcantes. Só não sei se ainda possuímos documentos onde eu pudesse confirmar as datas. Bem, nessa época, eu tinha uns cinco anos de idade aproximadamente. E foi por aí que comecei a ser instruído por minha mãe, que conforme disse antes, ela fora professora em Assaí, uma cidade colonizada por imigrantes japoneses no Paraná, onde mamãe passou parte de sua infância.
Lembro-me de ter demonstrado, ainda em Piabetá, um dos meus primeiros dons para as artes plásticas, que mais tarde já no Colégio Duque de Caxias começaria a aflorar sob a forma de desenhos feitos com lápis de cor ou grafite, mas enfim... Não sei exatamente quem me incentivou, mas pintei um quadro e dei de presente para mamãe, mas para minha infelicidade, o quadro foi pintado com tinta preta e não a agradou, ela disse que estava muito fúnebre. Aborrecido com as observações dela recolhi minha obra de arte e fui para o quarto chorar e dormir. Eu era muito pequeno e não tinha como comprar tintas, e acredito que a pintura tenha sido feita por pura intuição, utilizando uma sobra de tinta qualquer que encontrei pelo quintal, e inspirado pela imaginação fértil de uma criança com vontade de agradar à mãe.
Mas depois desse retrocesso nas lembranças, tentemos dar sequência às minhas parcas memórias, antes que eu as perca.
Quando nos mudamos de Piabetá, fomos morar na antiga Rua Tenente José Dias, em Duque de Caxias, numa casa localizada em frente ao clube chamado Center Club. Lembro que nos finais de semana eu podia ver, lá de casa, as mulheres de biquíni na beira da piscina, mas acho que via mais por curiosidade masculina, pois os efeitos da testosterona ainda não haviam se apresentado em meu corpo franzino.
Podia-se também ouvir as músicas tocadas nos grandes bailes de finais de semana que movimentavam os clubes nessa época. Pelo que me lembro, o ritmo que rolava era o Rock and Roll, que embalava as festinhas chamadas americanas que se fazia em casa entre os grupos de amigos. Nessas festas, cada um trazia um pratinho de salgados, sanduíches ou refrigerantes. Eram festas inocentes, combinadas tudo de última hora. Mas às vezes rolava a tal da "cuba libre". Estava na moda usar os cabelos crescidos, até caírem sobre os ombros - eu usei durante muito tempo - e vestir calças justas com boca de sino.
Para quem não sabe, nessas festinhas - das quais eu só comecei a participar mais tarde, quando entrei na adolescência - rolavam dois tipos de música: a rápida e a lenta. Os meninos mais tímidos, como eu, ficavam esperando tocar música lenta para convidar alguma menina para dançar de rostinho colado. Era muito interessante todo o clima que envolvia esse momento, desde o olhar, o charme, a coragem para fazer o convite, e o momento da música que marcava para sempre o casal, e virava uma espécie de trilha sonora dos pombinhos apaixonados, isto quando o namoro dava certo, pois antigamente não se costumava apenas ficar, o relacionamento não era tão volátil. Bem, mas vamos deixar essa história para mais tarde, pois nesse tempo eu apenas sonhava com esse momento, que somente alguns anos mais tarde se tornaria realidade.
A nossa casa ficava localizada, num lugar privilegiado, em excelente ponto de observação, de onde se podia ter uma visão panorâmica de parte da cidade. Na realidade a casa não nos pertencia, isto é apenas força de expressão, pois a casa era alugada.
No térreo, ficava outra casa onde morava uma senhora chamada Dona Áurea, de quem minha mãe tinha ciúmes, principalmente quando a via conversando com meu pai.
Nessa época, mamãe iniciou uma operação de guerra, para se vingar, movida pelos ciúmes que sentia, começando a colocar alguns frascos de desodorantes, cheios com água, nos buracos e nas rachaduras que existiam na laje da casa de baixo, onde morava Dona Áurea, a fim de ocasionar infiltrações, o que de fato dentro de algum tempo ocorreu.
Mas o tiro acabou saindo pela culatra, pois papai se ofereceu para consertar os estragos causados pela umidade no quarto da vizinha, sem saber que sua esposa era a mentora e autora dos prejuízos. Eu sempre tive receio da reação de papai, caso ele viesse a descobrir àquela atitude dela. Infelizmente, mamãe mais uma vez ficou se mordendo de ciúmes.
Nesse período, meu pai começou a criar passarinhos, e para alimentar sua mania de colecionador, comprava todos os domingos na feira de Caxias, passarinhos e gaiolas de todos os tipos. Esta feira se realizava no Bairro 25 de agosto, ao lado da linha do trem, e passou a ser chamada nos dias atuais, pejorativamente, de robauto, devido à suposta venda ilegal de material sem uma origem idônea.
Mas papai só estava interessado nos pássaros, e sempre retornava para casa, todos os finais de semana, com novos passarinhos de várias espécies, tamanhos e cores, que me deixavam fascinado. Para ajudá-lo me ofereci para cuidar da criação, e do grande viveiro que ele logo construiu para abrigar a vasta quantidade de novas aves que chegavam. Eram sabiás, curiós, canários, sanhaços, tizius, bicos-de-lacre, cardeais, coleiros e etc.
Eu ficava observando, totalmente fascinado, a diversidade da beleza e dos cantos das aves quase raras, que até então podiam ser criadas em cativeiro. Na época, não existia essa preocupação com a preservação das espécies em extinção, que em todos os lugares eram vendidas sem fiscalização nenhuma do IBAMA. Se bobear até hoje ainda se vende, mas isso é outra história.
De vez em quando papai chegava com algum pássaro ainda filhote, mas que merecia um cuidado especial para que crescesse e eu mais uma vez era o encarregado oficial de cuidar dos pequeninos, até que virassem belos pássaros emplumados. Eu fazia religiosamente toda a faxina, desde limpar as gaiolas, trocar água, comida, e alimentarno bico os filhotes.
Esta tarefa me encantava e, motivado pelo interesse, comecei a estudar tudo que me caía às mãos sobre os pássaros, a fim de conhecer um pouco mais. Comprei alguns cadernos onde eu escrevia os nomes de cada ave em ordem alfabética, e pesquisava sobre os seus hábitos. Eu vivia maravilhado com o assunto e não havia nome que eu já não conhecesse, e se por acaso ouvisse um nome novo, eu corria para anotar e pesquisar.
Na época eu nem sonhava com a possibilidade de fazer pesquisas na internet, pois nem me lembro de ter ouvido falar em computador. Por esse motivo eu pesquisava sobre novidades, nos pouquíssimos livros que possuíamos em casa. Meus livros eram meu tesouro, com os quais eu brincava folheando-os a toda hora, deslumbrado com as informações e novos conhecimentos que ia adquirindo. E com o interesse pelos pássaros, surgiram outros interesses, pela história e a geografia, e pelo planeta que era um lugar fantástico, que eu admirava olhando para o mapa-múndi com olhos bem abertos e brilhantes, tentando imaginar o futuro.
O futuro sempre foi um motivo de fascinação em minha vida, que me servia a toda hora de estímulo, para viajar pelas estradas da imaginação.
E sonhar... e sonhar... e sonhar...
Notas:
Assaí - Em 1932 um grupo de homens de origem japonesa, após adquirir do Governo do Estado considerável área de terras devolutas nesta região do vale do Tibagi, no dia 1º de maio daquele ano, partir da centenária cidade de Jataí (atual Jataizinho), embrenhou-se mata adentro. Mais tarde, naquele ano, após o levantamento geográfico e topográfico, foi organizada definitivamente a Companhia Colonizadora Três Barras, a sede já havia sido mudada para onde atualmente está localizada a cidade de Assaí. A sede já bastante povoada foi chamada ASSAILAND em homenagem aos colonos Japoneses aí estabelecidos (ASSAHI - Sol Nascente e LAND - Terra). O progresso e desenvolvimento de Assailand, graças à fertilidade da terra e condições favoráveis, principalmente às culturas de café e algodão, atraíram gradualmente várias levas de imigrantes em sua maioria de origem japonesa.
Cuba Libre - é uma bebida feita à base de rum claro e refrigerante de cola, levando também o suco de meio limão. Atribui-se a invenção desta bebida aos soldados norte-americanos que ajudaram nas guerras da independência cubana (1898). Explica-se, assim, o seu nome (Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cuba_Libre. Acesso em: 07/09/2010).
IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) - É o órgão federal executor da Política Nacional do Meio Ambiente com atuação em todas as unidades da federação(Estados, Municípios e Distrito Federal). Atua na área de pesca, fauna, flora, poluição, degradação, normatização, pesquisa, educação ambiental, técnica e unidades de conservação dentre outras. (Disponível em: http://www.ibamapr.hpg.com.br/faqibama.htm. Acesso em: 07/09/2010)
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