RAIOS DE MEMÓRIA

 

(Sétimo Capítulo)

 

Por Sergio Tavares

Quando viemos de Piabetá para Caxias, meu pai contou-me que moramos no Bairro dos Cavaleiros, numa casa localizada na Rua Henrique Valadares, mas dessa primeira vez que moramos lá – pois moramos nessa casa novamente alguns anos mais tarde - tenho pouquíssimas lembranças, por esse motivo no capítulo anterior já passei a contar as histórias ocorridas na Rua Tenente José dias. Não sei se o tempo se encarregou de deletar de minha memória este período de poucas lembranças, mas a verdade é que ficaram em minha mente só vagos momentos da mudança feita em um caminhão, que já chegou ao anoitecer na casa que tinha um coqueiro na frente. Lembro de meu pai procurando um lugar para acender a luz no dia da chegada, pois tudo estava às escuras, e quando ele encontrou levamos um susto, pois havia um cômodo antigo na casa onde existia um profundo poço. E para nosso espanto, dentro do buraco havia um gato boiando em uma tábua, miando desesperadamente a pedir socorro.

Depois de nos acomodarmos meu pai providenciou, juntamente com um amigo que viera dirigindo - se não me engano o Heleno – uma grande tábua emendada que foi colocada até o fundo do precipício para que o bichano escalasse e dessa forma pudesse conseguir se libertar. Ao sair, o gato fugiu desesperadamente enquanto nós – eu e meus irmãos - ainda crianças comemoramos a forma inteligente que papai conseguiu para salvar o gato.

A casa era muito grande, daquelas antigas com taco no chão, e lembro-me da mamãe dizer para ficarmos longe do quartinho onde havia o poço. Durante minhas escaramuças pela casa encontrei uma figa de madeira com alguns pontos de ouro (era uma verdadeira joia) que havia sido perdida pelo antigo morador. Minha mãe disse para que eu a guardasse, pois a figa me traria sorte, e guardei-a por muito tempo, mas hoje não lembro mais que fim levou meu pequeno amuleto.  

Acredito que ficamos morando por pouco tempo nessa casa, pois logo nos mudamos para a Rua Tenente José Dias em frente ao antigo Center Club, mas algumas cenas acontecidas por lá não me saem da cabeça. Nós éramos crianças e ao entardecer ficávamos brincando com outros meninos e meninas de nossa idade, enquanto mamãe cuidava dos afazeres domésticos.

Nesse dia nós estávamos nos divertindo de uma brincadeira inocente chamada “pêra, uva, maça ou salada mista?” em que passávamos um anel ou algo parecido de mão em mão, e depois escolhíamos o que queríamos ganhar e logicamente cada fruta tinha um significado diferente. Coisas que já não me lembro, mas uma era aperto de mão, a outra um abraço, e ainda tinha um beijo, que podia ser no rosto ou na boca. Mas repito que era tudo muito inocente, pois os nossos hormônios estavam a quilômetros de distância de nossos singelos pensamentos.

Lembro de uma menina que brincava chamada Efigênia e que era a mais assanhada de todas. Ela era filha de nossa vizinha que morava numa casa um tanto estranha e de aparência abandonada, pois parecia uma casa mal assombrada, por este motivo acho que viviam numa situação financeiramente precária, com a casa sempre às escuras.

Ela não era nada bonita, mas até que parecia interessante, pois era uma menina alta, tinha olhos verdes, e nessa brincadeira que havia sido sugerida por ela – que era a mais esperta – fui escolhido pela aliança que ela delicadamente colocou em minhas mãos. E para minha surpresa ela escolheu uma saldada de frutas que significava beijo na boca. Apesar dos pesares fiquei extremamente feliz, pois daria meu primeiro selinho na boca, e quando já me preparava para sapecar-lhe um belo beijo de olhos fechados, me veio uma drástica surpresa... Meu irmão que se encontrava sentados entre os brincantes, naturalmente por raiva ou ciúmes, resolveu aprontar de novo, e sem que ninguém esperasse... ele puxou meu short até os calcanhares, deixando-me totalmente despido no meio da rua e em frente às minhas amigas... Não sei que impressão causei, mas fiquei totalmente envergonhado e saí correndo para dentro de casa, até que a poeira abaixasse. Foi uma situação muito ridícula e que me deixou cabisbaixo por muito tempo.

Bem, mas essa foi uma das poucas histórias que me lembro desse período. Lembro que tinha um amigo chamado Jeba, que vivia pela rua soltando pipas, e gostava sempre de inventar novas gírias. Sempre que ele aparecia pela rua vinha com alguma novidade. Lembro também do português do armazém que tinha um papagaio onde comprávamos alguns mantimentos, pão, frango assado e refrigerantes nos finais de semana. 

Logo nos mudamos para uma casa localizada mais no centro de Duque de Caxias, pertencente ao mesmo dono dessa, e acredito até que por razões financeiras, mas alguns anos depois retornamos para essa mesma casa na Henrique Valadares, quando lá moramos pela segunda vez, e onde se passaram outras aventuras que ainda perambulam em minha mente, mas que as contarei no momento certo.            

Já em nossa nova casa - como antecipei no capítulo anterior - despertou em meu pai uma enorme mania de colecionador, e além dos pássaros ele começou posteriormente a colecionar plantas. Eram tinhorões de várias espécies e cores.

Quanto aos tinhorões acredito que era mamãe quem cuidava, pois além de bonitas e coloridas as diversas plantas davam um ar diferente dentro de nossa humilde casa. E juntamente com os tinhorões vieram também as samambaias choronas, as rendas portuguesas, e outras, de todo tipo e tamanho, que aos poucos foram transformando nossa casa em uma verdadeira floresta.

Mas logo que essa mania passou, ele começou a criar pintinhos que viravam rapidamente frangos tornando o pequeno galinheiro apertado.

Quando os pintos cresciam e viravam frangos, lembro de meu pai os matando estrangulados para serem preparados para o almoço. Era triste a dança dos frangos com o pescoço torcido, se contorcendo enquanto davam seus últimos suspiros. Isto me assustava e me mostrava um pouco do lado cruel do ser humano, não imaginava que meu pai fosse capaz de fazer algo tão ruim com um ser inocente.

Mas meu pai era meu herói e eu tentava compreender aquele ato, como uma forma de satisfazer a nossa necessidade de sobrevivência. E sem maiores preocupações eu apreciava o almoço que era preparado por minha mãe com os frangos ensopados com batata ou ao molho pardo. Mas logo os pintinhos começaram a dar muito trabalho, pois além da sujeira e dos cuidados, uma doença arrasou vários deles, fazendo com que papai desistisse da idéia de criá-los.

Mas somente para nos localizarmos melhor, diria que nossa casa ficava no alto de um morro, ao lado de um Colégio de freiras, nos fundos havia um vizinho chamado Edalmo, que pertencia à Marinha de Guerra. Do outro lado morava um espanhol com sua família, cujos nomes já se perderam no tempo da memória. Mas do alto nós tínhamos uma visão privilegiada de Duque de Caxias. Podíamos visualizar da laje de casa ao longe a rodoviária e o bairro Laguna e Dourados, que nessa época estava começando a crescer.

Estávamos mais ou menos no ano de 1974, pois lembro que o Brasil jogaria a próxima Copa do Mundo contra o temível "carrossel" Holandês. Nessa época, ainda se perguntava se o Rei Pelé jogaria ou não pelo selecionado brasileiro, mas isto acabou não acontecendo. No final das contas perdemos o jogo para os holandeses e o Pelé foi jogar no time do Cosmos dos EUA.

Tínhamos uma televisão em preto e branco e cheguei a ver jogos do Brasil com o Rivelino em campo. Minha irmã era um pouco mais fanática do que eu por futebol, tendo inclusive colecionado um dos álbuns de figurinhas dos jogadores de todas as seleções da Copa do Mundo.

Nessa época meu pai fazia bicos para sobreviver, pois havia saído da Polícia Militar, ele sentia fortes dores de cabeça, e algumas vezes teve que ficar de cama. Lembro que no dia em que o Brasil jogou contra a Argentina eu estava trabalhando com meu pai, pois ele costumava nos levar para ajudar em pequenas tarefas no seu novo trabalho. Eram trabalhos de reforma e pintura em uma rede de clínicas dentárias que ele começou a fazer com um hilário grupo de amigos. Eram consultórios espalhados por todo o Rio de Janeiro, e quando terminava uma obra, já estava para começar a reforma de outra. Com este emprego meu pai conseguia sustentar a família com dificuldades, pois tinha a saúde abalada pelas várias crises e dores que sentia, chegando a ficar de cama por uns tempos. 

Durante este período, minha mãe começou a trabalhar em feiras-livres por vários lugares do Rio de Janeiro, vendendo utensílios domésticos feitos de plástico ou mesmo roupas de pano, para ajudar no orçamento. Eu me lembro de ter ido algumas vezes com ela para algumas dessas feiras, onde tive a oportunidade de vivenciar a difícil missão de um vendedor informal. Eu não ajudava muito nas vendas, mas sempre ganhava alguma coisa de presente fazendo-a gastar o pouco dinheiro que ela ganhava, pois eu não tinha uma noção exata do tamanho do seu sacrifício.

Lembro-me dela trabalhando até tarde em casa, muitas vezes durante a madrugada para confeccionar roupas como, shorts, camisas, e peças de plásticos como, capas para ventiladores, capas para máquina de lavar, tolhas para mesas, cortinas de pia e de box, e na época do carnaval ela fazia máscaras, colares e roupas divertidas e coloridas para serem usadas nas festas. A antiga máquina de costura não parava durante semanas e meses inteiros, principalmente nos períodos de festa, fazendo com que mamãe algumas vezes virasse a noite acordando para trabalhar no dia seguinte. Enquanto ela ia costurando as peças nós íamos colocando elásticos nos shorts ou fazendo algum outro tipo de acabamento para ajudar.  

Acredito que minha mãe chegou a ficar cega no final de sua vida, devido a sua dedicação a este serviço, durante noites inteiras com a luz precária, num esforço contínuo para ajudar no sustento da casa. Foi realmente uma atitude muito bonita de mamãe sustentando o fogo quando meu pai estava com a saúde abalada.    

Durante esse período eu comecei a estudar em uma escola que se chamava Escola Pública Professora Elisa Lira, onde pude aprender realmente algumas lições que já haviam sido estudadas em Piabetá. A doçura dos mingaus que era servido nas merendas, durante os intervalos do recreio, abrandava a malvadeza de alguns professores, pois naquela época já não existia mais a palmatória, mas eu havia ouvido falar de algumas histórias de castigos contados por meu pai e minha mãe e vivia arrepiado de medo. Cheguei a ficar de castigo algumas vezes, pois alguns professores ainda se utilizavam destes métodos arcaicos para ensinar. Mas de um modo geral não tenho muitas lembranças ruins dessa Escola. Comecei a fazer cadernos de caligrafia nessa época para tentar melhorar minha letra que nunca melhorou e minha mãe para me agradar dizia que eu tinha letra de médico. Eram verdadeiros garranchos que nunca mais consegui endireitar durante a minha vida, apesar de ter tentado sem muito esforço é verdade.

Certa vez quando estava retornando da escola achei um anel no meio da rua, que descobri depois ter certo valor, pois além de ser de ouro possuía uma pérola e alguns brilhantes. O anel foi guardado durante muito tempo até que numa época de aperto, foi vendido por meu pai para saldar dívidas. Eu tinha sorte em achar coisas valiosas, e não sei se isso era só coincidência ou um sinal que ao longo de minha vida era deixado no meu caminho, para que eu decifrasse as mensagens. Mas eu apenas seguia em frente sem me preocupar com o futuro, que na visão de uma criança é sempre algo fantástico e longínquo.

Na Escola eu possuía um amigo chamado João. Ele era o que posso considerar agora como um de meus melhores e verdadeiros amigos. Talvez o único, pois não tenho lembrança de nenhum outra dessa época. Normalmente ele me acompanhava sempre até minha casa para conversarmos sobre os pássaros que ele também gostava. Era um amigo legal, e diria que até certo ponto ingênuo, pois me lembro de um dia ele propor a troca de um galo-da-campina que ele possuía por um tiziu, que pertencia ao meu pai. Eu achei aquilo estranhíssimo, mas meu pai aceitou, pois o tiziu quase não cantava, e o galo-da-campina era um lindo pássaro com a cabeça vermelha. Claro que esta troca, segundo João, foi com a autorização do pai dele. Mas acredito agora que o querido amigo estava vendo algo além da beleza exterior, algo que eu não conseguir ver naquela época. Ele estava vendo a felicidade em coisas muito pequenas.      

Algumas vezes fomos ao cinema juntos, pois eu estava com uns doze anos, e comecei a ir ao Cine Brasil, que ficava no bairro 25 de agosto, e no cinema Santa Rosa e Cine Paz que ficavam no centro de Caxias na Praça do Pacificador. Naquela época assistíamos a filmes “enlatados” japoneses de artes marciais, e nos empolgávamos vendo as lutas de Kung Fu e Karatê, e achávamos aquilo o máximo. Era época de vibrarmos com os filmes estrelados por Bruce Lee, pois o cinema era a grande diversão dessa época, sem falar que algumas vezes tínhamos que enfrentar grandes filas para conseguirmos entrar no cinema.

Algumas vezes tentávamos burlar a segurança e entrarmos para assistir algum filme impróprio para menores de dezoito, mas normalmente éramos barrados na entrada ainda no caixa, quando nos pediam a identidade. Éramos crianças e estávamos começando a conhecer algumas novidades que o mundo possuía para nos oferecer, portanto a curiosidade era natural. O nosso tempo passava mais devagar do que hoje, pois não éramos bombardeados pela mídia, da televisão ou da internet, como nos dias atuais. Para falar a verdade nem sonhávamos com computadores.  

Éramos verdadeiros super-homens e achávamos que tudo nos seria possível um dia, e nada era impossível para um menino que logo seria um homem. Talvez os efeitos da testosterona já se fizessem aperceber dentro de nossos corpos franzinos, mas ainda era muito cedo para pensarmos em sexo.

Mas houve um dia que uma grande enchente inundou grande parte de Caxias. Lembro ter visto de minha casa o trabalho dos bombeiros resgatando pessoas desabrigadas com as enchentes causadas pelas chuvas. As pessoas eram levadas para alguns locais que foram transformados em abrigos como o “Center Club” e o Colégio Santo Antônio, que eram nossos vizinhos. 
           Nesse dia, os pais de meu amigo João – os quais eu nunca tinha visto antes - estiveram lá em casa procurando por ele. Parece que João, depois de sair de nossa casa numa de suas visitas habituais, fora tomado de surpresa pela enchente e não conseguira retornar para sua casa.

Fiquei sabendo no dia seguinte que ele havia desaparecido sob as águas de um rio que passava próximo à Escola Elisa Lira. Ouvi dizer que alguém chegou a ver o pobre João sendo arrastado pela correnteza, mas disso eu nunca tive certeza.

Esta foi a última vez em que vi meu amigo João a quem revejo agora nessas raríssimas imagens perdidas na minha imaginação, revistas por olhos de uma criança ainda muito inocente.

 

 

 Notas:


Robauto (roubo+auto) - originalmente esta palavra se refere popularmente a venda ilegal, logicamente, de peças de carros roubados. Entretanto, era a forma como era conhecida a feira-livre a que me refiro no texto. Além da venda ilegal das peças referidas, havia a venda ilegal de pássaros e animais silvestres.  (definição do autor).

Carrossel holandês - foi o nome dado ao esquema tático utilizado pela Seleção Holandesa de Futebol na Copa do Mundo FIFA de 1974. Ficou mais conhecido em língua portuguesa como "Carrossel Holandês" embora possa também ser referida como "Futebol Total" ou, ainda, "Laranja Mecânica" em alusão à obra homônima e ao filme nela inspirado. O esquema parecia uma versão melhorada da Hungria de 1954 e foi chamado de carrossel porque os jogadores não tinham posições fixas e circulavam pelo campo. 
(Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carrossel_holandês. Acesso em: 07/09/2010)
 
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